Condição pouco conhecida pode afetar o desenvolvimento infantil
Especialista, Dra. Gabriela Guimarães, explica como alterações no metabolismo do folato podem impactar o cérebro de crianças mesmo com exames normais
Apesar de ainda ser pouco falada fora do meio médico, a deficiência cerebral de folato tem chamado a atenção de especialistas por seu possível impacto no desenvolvimento neurológico, principalmente em crianças que apresentam atrasos, regressões ou dificuldades sem causa aparente.
Segundo a médica e neurocientista Gabriela Guimarães, pesquisadora e especialista no tema, alterações no metabolismo do folato, especialmente na sua forma ativa, podem interferir diretamente no funcionamento do cérebro.
O que é a deficiência cerebral de folato?
Diferente do que muitos pais imaginam, essa não é simplesmente uma deficiência de vitamina no sangue. A condição ocorre quando o cérebro não consegue receber ou utilizar adequadamente o folato, mesmo quando os exames laboratoriais estão dentro da normalidade.
"O que acontece é uma falha na utilização ou no transporte do folato até o cérebro", explica a especialista.
O folato é essencial para funções fundamentais do organismo, como a formação do sistema nervoso, a síntese e reparo do DNA e o funcionamento adequado das células cerebrais. Para exercer essas funções, ele precisa estar em sua forma ativa, conhecida como metilfolato.
Quando esse processo falha, especialmente na infância, o impacto pode ser direto no desenvolvimento neurológico.
Quais sinais podem aparecer nas crianças?
Os sinais podem variar bastante, o que muitas vezes dificulta o diagnóstico.
Entre os principais pontos de atenção estão:
- atraso no desenvolvimento (fala, aprendizado e coordenação)
- regressão de habilidades já adquiridas
- dificuldades cognitivas
- alterações de comportamento
- crises convulsivas em alguns casos
- "Não existe um padrão único. São quadros complexos, que muitas vezes acabam sendo atribuídos a outras condições", destaca a médica.
Onde o folato é encontrado?
O folato está presente em diversos alimentos do dia a dia, principalmente em vegetais verdes escuros, como espinafre e brócolis, além de leguminosas como feijão, lentilha e grão-de-bico.
Também pode ser encontrado em frutas, como laranja e abacate, e em alimentos de origem animal, como o fígado. No entanto, atualmente, uma parte significativa da ingestão de vitamina B9 pela população vem de alimentos fortificados e suplementos, geralmente na forma de ácido fólico.
Segundo a especialista, esse ponto merece atenção.
"Hoje, com a fortificação de alimentos e o uso frequente de suplementos, há uma grande exposição ao ácido fólico, que é uma forma sintética, oxidada e nem sempre bem biodisponível da vitamina B9. Isso pode dificultar a utilização adequada pelo organismo, especialmente em pessoas que já têm alterações nas vias do folato", explica.
Ela destaca que, nesses casos, não é apenas a ingestão que importa, mas a forma como o corpo consegue metabolizar e utilizar esse nutriente.
"Nem sempre o problema está na quantidade ingerida, mas na capacidade do organismo de converter e aproveitar esse folato de forma eficiente", completa.
"Em muitos casos, a forma ativa, o metilfolato, é a que de fato será utilizada pelo organismo. Já o ácido folínico pode ser indicado em situações específicas, como na deficiência cerebral de folato, por ter um papel diferente no metabolismo", acrescenta.
Por que essa deficiência acontece?
Na maioria das vezes, a deficiência cerebral de folato não está relacionada à alimentação.
Segundo a especialista, o problema pode estar em mecanismos do próprio organismo que dificultam a chegada ou o uso do folato no cérebro.
"Podemos ter dificuldades no transporte do folato até o sistema nervoso central, alterações genéticas ou até a presença de autoanticorpos que bloqueiam essa entrada", afirma.
Ela também destaca falhas na conversão do ácido fólico em formas ativas.
"Ou seja, mesmo com ingestão adequada e exames aparentemente normais, o cérebro pode não receber o que precisa."
Existe tratamento?
Em alguns casos, há possibilidade de tratamento, principalmente quando o mecanismo envolvido é identificado.
A abordagem pode incluir o uso de formas específicas de folato, com indicação individualizada.
"Não se trata de suplementar indiscriminadamente, mas de entender quando há indicação e individualizar cada paciente", reforça.
Livro traz um novo olhar sobre o tema
As pesquisas e a experiência clínica da médica deram origem ao livro O Fator Folato.
A obra reúne evidências científicas e a vivência clínica da especialista sobre deficiência cerebral de folato, uso de ácido folínico e possíveis relações com quadros de regressão e alterações do neurodesenvolvimento.
"No livro, eu aprofundo essa discussão e organizo a literatura científica para facilitar o acesso à informação baseada em evidências", explica.
Quando os pais devem ficar atentos?
Mesmo sendo considerada uma condição rara, a orientação é observar sinais persistentes no desenvolvimento infantil.
Especial atenção deve ser dada a casos de regressão de habilidades ou dificuldades que não evoluem como esperado.
"Quando há algo fora do padrão do desenvolvimento, é importante investigar. Um olhar atento pode fazer diferença no diagnóstico e nas possibilidades de intervenção", orienta a especialista.



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