70% das mulheres chegam ao trabalho com sentimentos negativos todos os dias
Dados de duas pesquisas independentes revelam sobrecarga emocional, dupla jornada e ausência de cuidado entre trabalhadoras brasileiras, às vésperas da NR-1
No Dia do Trabalho, duas pesquisas sobre bem-estar de trabalhadores brasileiros chegam a um diagnóstico comum: as mulheres carregam o maior peso emocional do mercado de trabalho, com menos suporte, mais responsabilidades acumuladas e piora nos indicadores de saúde mental em relação ao ano anterior. E o ponto de atenção é que a partir de maio, a NR-1 passa a exigir que empresas identifiquem e gerenciem riscos psicossociais no ambiente de trabalho.
O Check-up de Bem-estar 2025, conduzido pela Vidalink com 11.600 profissionais de 250 empresas brasileiras com mais de 300 colaboradores, mostra que 70% das mulheres relatam sentimentos negativos, entre ansiedade, angústia ou ausência de disposição, na maior parte dos dias. Entre os homens, esse índice é de 51%. A diferença de 19 pontos percentuais é consistente em todos os setores pesquisados e se aprofunda entre as gerações mais jovens: entre mulheres da Geração Z, o percentual chega a 72%.
O cenário agrava quando se observa o que essas mulheres fazem para cuidar da própria saúde mental. Segundo o mesmo estudo, elas recorrem mais à terapia e a medicamentos do que os homens. Os homens, por sua vez, lideram na categoria "não faço nada". O consumo de medicamentos para saúde mental cresceu entre as gerações Z, Millennials e X em relação a 2024, sinal de que o adoecimento não é episódico.
"Os dados mostram um padrão que não é individual, é estrutural. Quando 70% das mulheres chegam ao trabalho carregando ansiedade ou angústia, estamos diante de um problema estrutural, não de resiliência pessoal. A NR-1 cria a obrigação legal de enxergar isso, mas o mais importante é que as empresas entendam que o bem-estar feminino no trabalho não é pauta de diversidade. É preciso pensar em ações que gerem resultados efetivos", afirma Luis Gonzalez, CEO e cofundador da Vidalink.
A sobrecarga não é apenas emocional. O Check-up revela que 38% das mulheres acumulam dupla jornada, com trabalho e responsabilidades domésticas, contra 24% dos homens. Entre mulheres pretas e pardas da Geração Z, esse percentual sobe para 26%, ante 19% entre seus pares masculinos da mesma geração. A insatisfação com o bem-estar geral também é maior entre as mulheres: 29% declaram insatisfação, contra 15% dos homens.
Esses números encontram correspondência no Mapa da Felicidade Real no Brasil 2026, pesquisa nacional conduzida pela Reconnect Happiness at Work com 1.500 entrevistas representativas em todo o país, realizada em parceria com o Instituto Ideia, com margem de erro de 2,5 pontos percentuais e 95% de confiança estatística. O estudo identifica o que chama de fachada da alegria: embora 89% dos brasileiros se declarem felizes, 46% sentiram preocupação com frequência no dia anterior à pesquisa e 33% apontam a ansiedade como emoção predominante no cotidiano.
"O Brasil aprendeu a sorrir sob pressão. Mas quando os dados mostram que a ansiedade é a emoção dominante de um terço da população, e que as mulheres carregam esse peso de forma desproporcional no trabalho e em casa, precisamos nomear o que está acontecendo. Felicidade real não cabe em uma campanha de bem-estar. Ela exige mudança nas condições em que as pessoas trabalham e vivem", diz Renata Rivetti, pesquisadora da Ciência da Felicidade e fundadora da Reconnect Happiness at Work.
O Mapa da Felicidade documenta também a tensão estrutural do modelo de trabalho predominante no país. Quase metade dos trabalhadores brasileiros, 45%, opera na escala 6x1, formato que, segundo o estudo, compromete diretamente o tempo de convívio familiar e o tempo livre, dois dos principais fatores associados à percepção de bem-estar. A desigualdade econômica aprofunda o quadro: entre as classes D/E, apenas 27% dizem estar muito satisfeitas com a vida profissional, ante 56% nas classes A/B.
A entrada em vigor da NR-1 torna o diagnóstico mais urgente do ponto de vista corporativo. Pela nova regulamentação, empregadores deverão identificar, avaliar e controlar fatores de risco relacionados ao sofrimento mental no ambiente de trabalho, o que inclui sobrecarga, ritmo excessivo e falta de autonomia.
Para Gonzalez, a norma representa uma janela de transformação, não apenas de adequação regulatória. "As empresas que já têm dados sobre o bem-estar dos seus times estão em vantagem. Mas o ponto de partida é reconhecer que o problema existe, e que ele tem rosto, geração e gênero."



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