Elexsandro Araújo
DOR, PRECONCEITO E CÉREBRO: O QUE A CIÊNCIA NOS ENSINA SOBRE A DOR CRÔNICA NA POPULAÇÃO TRANS E LGBTQIA+
DOR, PRECONCEITO E CÉREBRO: O QUE A CIÊNCIA NOS ENSINA SOBRE A DOR CRÔNICA NA POPULAÇÃO TRANS E LGBTQIA+
A Parada do Orgulho LGBTQIA+ de São Paulo, completa 30 anos de história, uma importante pauta de saúde precisa ganhar espaço no debate público: a relação entre sofrimento social crônico, diversidade de gênero e dor crônica.
Nos últimos anos, a ciência passou a investigar com maior profundidade um fenômeno já observado por muitos profissionais de saúde: pessoas transgênero apresentam taxas mais elevadas de dor crônica, fadiga, sofrimento emocional e sintomas compatíveis com fibromialgia quando comparadas à população geral. Estudos internacionais identificam prevalências significativamente maiores de fibromialgia em pessoas trans, especialmente entre homens trans, sugerindo que fatores biológicos, psicológicos e sociais atuam de forma integrada nesse processo.
É fundamental esclarecer: ser trans não causa fibromialgia.
O que a literatura científica aponta é um cenário muito mais complexo. A fibromialgia é uma condição caracterizada por alterações no processamento da dor pelo sistema nervoso central. Nesses casos, o cérebro passa a interpretar estímulos comuns de maneira amplificada, gerando dor difusa, fadiga intensa, alterações do sono, dificuldades cognitivas e sofrimento emocional.
Atualmente, sabe-se que o estresse crônico é um dos principais fatores envolvidos no desenvolvimento da chamada sensibilização central, mecanismo diretamente relacionado à fibromialgia e a outras síndromes dolorosas crônicas.
Quando observamos a realidade vivida por grande parte da população trans, encontramos fatores reconhecidamente associados ao aumento do risco de dor crônica: rejeição familiar, discriminação, violência, exclusão social, insegurança econômica, dificuldades de acesso aos serviços de saúde e sofrimento psicológico persistente.
A própria Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) reconhece que experiências como bullying, assédio, exclusão social, ansiedade, depressão e transfobia podem influenciar significativamente a experiência dolorosa dessa população.
O impacto do estresse no cérebro
Do ponto de vista neurobiológico, o cérebro não diferencia completamente uma ameaça física de uma ameaça emocional contínua.
Quando uma pessoa vive por anos em estado de alerta, medo ou hipervigilância, ocorre uma ativação persistente dos sistemas relacionados ao estresse. Esse processo modifica circuitos cerebrais envolvidos na percepção da dor, na qualidade do sono, no humor e até mesmo na resposta inflamatória do organismo.
Com o tempo, o corpo passa a funcionar como se estivesse permanentemente preparado para enfrentar uma ameaça. O resultado pode ser um aumento da vulnerabilidade ao desenvolvimento de dor crônica.
Como médico da dor, observo diariamente que traumas emocionais prolongados podem deixar marcas tão profundas quanto traumas físicos. O sistema nervoso registra experiências de sofrimento, aprende padrões de proteção e, muitas vezes, essa proteção excessiva se manifesta na forma de dor.
Uma questão de saúde pública
Discutir a saúde da população LGBTQIA+ não é apenas uma questão de direitos civis ou de representatividade. É também uma questão de saúde pública.
Em um cenário global marcado pelo crescimento de discursos neoconservadores, aumento da polarização política e questionamentos sobre direitos historicamente conquistados, torna-se essencial compreender que o preconceito não produz apenas sofrimento psicológico. Ele pode resultar em adoecimento físico mensurável.
A medicina moderna já não enxerga a dor apenas como um problema dos músculos, articulações ou nervos. A dor é reconhecida como um fenômeno biopsicossocial, resultante da interação entre fatores biológicos, emocionais, experiências de vida e contexto social.
Quando uma população enfrenta, de forma desproporcional, violência, exclusão e barreiras de acesso ao cuidado, não é surpreendente que apresente também maior carga de sofrimento físico.
Mais acolhimento, menos sofrimento
A Parada do Orgulho LGBTQIA+ é uma celebração da diversidade, mas também um importante lembrete de que ainda existem desigualdades significativas em saúde.
Garantir acolhimento, acesso ao tratamento, respeito e segurança para a população LGBTQIA+ não é apenas uma questão de cidadania. É também uma estratégia de prevenção do sofrimento humano.
Porque o preconceito adoece.
A exclusão machuca.
E a dor, muitas vezes, começa muito antes de aparecer no corpo.
Dr. Luiz Severo
Neurocirurgião Funcional • Médico da Dor
MSc • PhD em Neurociências
CEO do Centro Paraibano de Dor (CPDOR) e NeuroEquilibrium – Centro de Neuromodulação



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