O mercado de trabalho e a resistência diária: o que o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha nos lembra
Em um país marcado por desigualdades estruturais, mulheres negras seguem reinventando suas trajetórias e ocupando espaços no mercado de trabalho, com coragem, resistência e apoio coletivo.
Celebrado em 25 de julho, o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha vai além de uma data no calendário: é um lembrete da luta histórica, das conquistas e, principalmente, das barreiras ainda existentes. Em um país como o Brasil, onde mulheres negras são a maioria da população feminina, mas continuam invisibilizadas em espaços de poder e oportunidades profissionais, essa data é uma convocação para olhar com mais atenção e urgência para a desigualdade estrutural.
Conversamos com duas mulheres negras que transformaram suas trajetórias profissionais como ato de resistência, coragem e reinvenção: Sandra Regina, que trocou a medicina para se tornar professora de História, e Jaqueline Gomes Olímpio, analista de infraestrutura de cloud da T-Systems do Brasil, que reencontrou o sonho de trabalhar com tecnologia aos 40 anos.

“Essa data representa a minha história”, comenta Jaqueline Gomes Olímpio
Com uma trajetória marcada por recomeços, Jaqueline começou a estudar tecnologia ainda na adolescência, mas encontrou um mercado excludente e pouco acolhedor para uma mulher negra. “Eu desisti antes mesmo de tentar, porque não me via pertencendo àquele espaço. Era um ambiente dominado por homens brancos, e para uma mulher preta, era ainda mais difícil”, conta. Foi apenas aos 40 anos, após anos empreendendo e lidando com os desafios da maternidade e da vida adulta, que ela decidiu se permitir sonhar novamente. “Entrei em um curso introdutório da PretaLab e ali, pela primeira vez, encontrei acolhimento e escuta. Percebi que podia, sim, ser protagonista da minha história”, afirma.
Hoje, Jaqueline atua na área de Cloud Computing e participa ativamente de redes como a Escola da Nuvem e o AWS User Group São Paulo. Para ela, a data de 25 de julho é símbolo de força coletiva e do poder da ancestralidade. “É sobre reconhecer de onde vim, quem sou e o que ainda posso conquistar. Por mim e por tantas outras que sonham em ocupar esses espaços.”
“Ser professora foi meu ato de liberdade”, declara Sandra Regina
Aos 40 anos, Sandra Regina decidiu trocar a medicina pela sala de aula. Filha de empregada doméstica e neta de lavadeira, ela conta que cresceu ouvindo que “mulher preta tinha que se esforçar dobrado”. Cursou medicina até o quarto ano, mas percebeu que aquele não era o seu chamado. “Eu queria contar histórias, não só as do corpo humano, mas as do nosso povo. Queria falar sobre Zumbi, Dandara, Marielle. Queria ser ponte entre passado e futuro.”

O caminho, no entanto, não foi simples. Ao anunciar a mudança, ouviu que estava “jogando uma carreira fora”. Mas a sala de aula a transformou. “Na História, encontrei meu lugar. Encontrei uma forma de me conectar com outras meninas negras que, como eu, precisam de referência. Hoje, quando uma aluna diz que quer ser professora porque me viu ali, eu entendo que acertei.”
Avanços e os “cadeados invisíveis”
Quando perguntadas sobre o cenário atual do mercado de trabalho para mulheres negras, tanto Jaqueline quanto Sandra são unânimes: houve avanços, mas as barreiras ainda são profundas. “Hoje vemos mais mulheres negras entrando em áreas como tecnologia, mas a permanência ainda é um desafio”, afirma Jaqueline. Ela critica a superficialidade de algumas políticas de inclusão: “Tem muita empresa que fala em diversidade, mas na prática não contrata ou não promove mulheres negras.”
Sandra reforça: “Ser a única mulher preta em reuniões ainda é rotina. A gente precisa provar o tempo todo que é capaz. A meritocracia não existe quando a largada é desigual.”
Redes de apoio: acolher para avançar
Para ambas, as redes de apoio foram fundamentais. Jaqueline cita comunidades como a PretaLab e a Escola da Nuvem, que proporcionaram não apenas formação técnica, mas suporte emocional e fortalecimento de autoestima. “Eu achava que estava recomeçando do zero, mas descobri que minha mochila estava cheia de habilidades. Eu só precisava aprender a usá-las.”
Sandra também vê na educação e no afeto coletivo a chave para a transformação. “A gente precisa de espaços que não nos violentem, que acolham nossas dores e potencializem nossos sonhos. Eu tive isso com outras professoras negras que me mostraram que o magistério é também um lugar de poder.”
Recomeçar como ato político
“Recomeçar não é fracasso, é coragem”, resume Jaqueline. Ela orienta outras mulheres negras que pensam em mudar de carreira a buscarem informação, redes de apoio e, acima de tudo, acreditarem em si. “Você não precisa saber tudo para começar. Precisa ter um sonho e seguir com estratégia. Se conecte com quem chegou onde você quer estar. O caminho não é fácil, mas com apoio, ele se torna possível.”
Sandra conclui com um lembrete potente: “O 25 de julho nos lembra que existimos, resistimos e seguimos plantando sementes para um futuro com mais equidade. Porque o futuro precisa ser preto, feminino e justo.”



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