• Rio de Janeiro, 28/07/2026
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1 em cada 10 profissionais não têm as competências tecnológicas que o trabalho exige

Pesquisa global realizada com mais de 6 mil profissionais aponta os principais desafios das empresas para desenvolver talentos em um cenário de avanço da IA, pressão por requalificação e demanda por aprendizagem mais rápida


1 em cada 10 profissionais não têm as competências tecnológicas que o trabalho exige

23% das funções podem enfrentar obsolescência de competências nos próximos três anos, 41% dos colaboradores dizem que o treinamento chega tarde demais e 68% das lideranças de RH apontam inteligência artificial e automação como os fatores que mais devem impactar competências nos próximos dois anos. Esses dados fazem parte do “Barômetro Internacional Cegos 2026”, levantamento realizado pelo Grupo Cegos e conduzido no Brasil pela Crescimentum, que faz parte do grupo francês.

Entre os entrevistados estão 5.524 colaboradores e 498 líderes de RH e treinamento de 11 países, ouvidos entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026. A pesquisa mostra que o desenvolvimento de competências se tornou uma preocupação mais urgente para as empresas em um ambiente de transformação acelerada, em que o trabalho muda rápido, as exigências se acumulam e o tempo de resposta da aprendizagem ainda não acompanha a velocidade do negócio.

Segundo Veronica Ahrens, Sócia-Diretora de Learning & Development e Head das Soluções de Liderança na Crescimentum, o dado mais relevante do estudo não está apenas no risco de desaparecimento de funções, mas no fato de que a transformação já alterou a natureza do trabalho. Para ela, o mercado entrou em uma lógica em que adaptação contínua, empregabilidade e aprendizagem deixaram de ser temas periféricos e passaram a ocupar lugar central na estratégia.

O levantamento mostra que, entre os colaboradores, 31% temem que seu emprego desapareça. Ao mesmo tempo, 74% acreditam que a natureza do seu trabalho vai mudar. Na visão do RH, a tecnologia lidera essa transformação. Globalmente, 68% das lideranças apontam IA e automação como os fatores que mais devem impactar competências no curto prazo. Em seguida aparecem a evolução dos sistemas de informação e a cibersegurança, com 41%, e as novas formas de organização do trabalho, com 33%.

Diante desse cenário, as empresas vêm alterando suas respostas. A pesquisa mostra que 65% das áreas de RH priorizam a requalificação de talentos internos, enquanto 57% já apoiam a mobilidade para outras funções. Em paralelo, o recrutamento de novos perfis perdeu força. Segundo Veronica, esse movimento mostra que o mercado começa a reconhecer que contratar, sozinho, não resolve um problema que se tornou estrutural. Para ela, o desenvolvimento interno volta ao centro porque a transformação exige atualização constante e repertório mais conectado ao contexto real da organização.

Ainda assim, a pesquisa revela uma distância importante entre a percepção das empresas e a experiência dos profissionais. Embora 77% dos líderes de RH afirmem que suas organizações são ágeis para atender às necessidades de treinamento, 41% dos colaboradores dizem que a resposta chega tarde demais, muitas vezes semanas ou meses depois da demanda. Segundo Veronica, esse descompasso mostra que o desafio já não é apenas oferecer formação, mas garantir que ela chegue no momento em que a necessidade aparece.

O estudo também indica que quase uma em cada quatro pessoas já sente ou antecipa fortemente alguma forma de obsolescência de competências. Globalmente, 10% afirmam que já não têm mais as habilidades necessárias para desempenhar bem sua função e 16% acreditam que isso pode acontecer em breve.

No recorte brasileiro, o barômetro chama atenção por uma contradição. Os profissionais brasileiros dão nota 7,9 para sua capacidade individual de se adaptar ao mundo do trabalho em 2035. Além disso, 91% dizem ter clareza sobre a evolução da própria função, 96% afirmam saber quais competências já possuem e 93% dizem conhecer as oportunidades de aprendizagem disponíveis. Em todos esses indicadores, o Brasil supera a média global. Ainda assim, 16% afirmam que suas competências já estão obsoletas e outros 13% acreditam que isso vai acontecer em breve.

De acordo com a diretora, esse contraste pede uma leitura menos confortável. “A leitura mais simples seria dizer que esse é um retrato de maturidade, de profissionais que enxergam a mudança e confiam na própria capacidade de responder a ela. Mas existe outra possibilidade. Essa confiança alta também pode esconder um profissional que está tentando dar conta sozinho, com iniciativa de sobra e suporte de menos”, afirma.

Outro dado reforça essa interpretação. No Brasil, 44% dos profissionais se dizem os principais responsáveis pelo próprio desenvolvimento de competências, o maior índice entre os países pesquisados. Para a Diretora, protagonismo é importante, mas não pode ser confundido com transferência silenciosa de responsabilidade. “Quando o desenvolvimento fica concentrado demais no indivíduo, o risco é transformar autonomia em abandono. A empresa oferece acesso, a pessoa se vira como consegue, mas a competência real só se consolida quando existe contexto, prática, acompanhamento e direção”, diz.

A inteligência artificial entra nessa discussão como parte da resposta, mas também como parte da tensão. Globalmente, 79% dos colaboradores afirmam usar IA generativa para fins pessoais e 64% já utilizam a tecnologia no trabalho. Apesar disso, apenas 28% das empresas formalizaram e compartilharam diretrizes de uso com suas equipes. Além disso, só 32% dos profissionais receberam algum tipo de formação estruturada sobre IA oferecida pela organização.

No Brasil, a adoção também avança rapidamente: 76% dos profissionais de RH já usam ou planejam usar IA generativa em treinamento, enquanto 61% dos colaboradores usam IA para aprender. “A IA amplia acesso, acelera a curva inicial do aprendizado e ajuda a democratizar conteúdo. Mas saber algo é diferente de saber fazer algo. O que transforma resposta em competência continua dependendo de aplicação prática, feedback e liderança presente”, afirma.

O estudo indica ainda que 63% das organizações já usam ou estão implementando IA generativa em treinamentos, e 57% já adotam ou estão implementando personalização de trilhas de aprendizagem com apoio da tecnologia. Para Verônica, isso mostra que a IA começa a ganhar espaço não apenas como tema de capacitação, mas também como ferramenta para tornar o aprendizado mais ágil, acessível e aderente à necessidade de cada profissional.

Ao olhar para 2035, colaboradores e RH convergem em uma visão semelhante do futuro do trabalho. Ambos imaginam um ambiente mais tecnológico, mais flexível e mais ágil. Ainda assim, a principal missão atribuída ao treinamento no futuro não é apenas acompanhar a tecnologia, mas desenvolver as habilidades humanas que diferenciam pessoas da IA. Globalmente, esse é o principal desafio apontado por 23% dos colaboradores e 21% do RH.

No Brasil, segundo a leitura consolidada do estudo, os profissionais já indicam quais competências ganham mais relevância nesse cenário. Entre elas aparecem criatividade e inovação, com 33%, agilidade e adaptação, com 32%, inteligência emocional, com 32%, e aprender a aprender, com 30%.

Para a Crescimentum, o barômetro reforça que o desenvolvimento de competências deixou de ser uma agenda paralela e passou a ocupar papel central na estratégia das empresas. Mais do que oferecer acesso a cursos, o desafio agora é reduzir o tempo entre a mudança do negócio e a capacidade real das equipes de responder a ela, com aprendizagem mais contínua, mais aplicada e mais conectada à prática.




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